quarta-feira, 12 de agosto de 2009

" A Barca Branca' de Marialzira Perestrello


Não é de hoje a imagem da barca. Enquanto mito e metáfora, ela é antiqüíssima. É a nave dos loucos, da iconografia medieval. É o bateau Livre, de Rimbaud. É uma embarcação maldita, como aquela de onde o antigo marinheiro matou um albatrós, na balada de Coleridge, recebendo por isso um castigo terrível, ou aquela em que o holandês errante, na ópera de Wagner, foi condenado a navegar para sempre, como punição por sua blasfêmia. É também uma embarcação onírica, realização de desejo no mais puro sentido freudiano, como aquela sonhada por Jenny, na balada de Bert Brecht e Kurt Weil, em que um navio com oito velas e cinqüenta canhões vinga a heroína por todas as humilhações sofridas e desaparece com ela, rumo ao país da perfeita justiça.
Em todos esses exemplos, o que conta é a viagem, com um começo e um fim definidos. A viagem, ainda que simbólica, começa com a partida e termina, ou deveria terminar, com a chegada. É um processo temporal irreversível. No entanto, há um tipo de embarcação cujo objetivo não é propriamente uma viagem, e sim uma travessia, travessia sempre recomeçada, inscrita num tempo cíclico, aberto, em que cada chegada já é retorno, início de uma nova partida. Essa barca não está a serviço da viagem, e sim do trânsito, da passagem. São desse tipo as balsas, que ligam as duas margens de um rio. São desse tipo, também, as embarcações que ligam um continente a uma ilha, como a barca Durande, nos Trabalhadores do mar, de Victor Hugo, em seu interminável movimento pendular entre Saint-Malo e a ilha de Guernesey.
É assim a barca branca de Marialzira Perestrello. É a barca de Paquetá, também encarregada de ligar a terra firme a uma ilha, e tão cheia de significações míticas quanto a Durande, porque não se trata de uma ilha qualquer, e sim do lugar da felicidade perdida. Paquetá foi o locus amoenus em que ela se refugiava com seu marido Danilo, psicanalista como ela, numa casa de praia, numa baía ainda não poluída. Nessa casa o tempo parava, até o momento da volta ao Rio e à vida profissional. A barca simboliza tudo isso, embora nem sempre o casal a utilizasse, porque Danilo, navegador como outro Perestrello, seu antepassado remotíssimo, tinha sua própria lancha. Não importa: a barca, mesmo parada, é traço de união entre a ilha e o continente, entre o mundo do prazer e o do trabalho. (Sergio Paulo Rouanet)
Texto retirado de http://www.republicadolivro.com.br

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