terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Os homens que não amavam as mulheres" de Stieg Larsson.


Já faz algum tempo que um livro não faz por mim o que este fez. Proporcionou-me um descanso qualitativamente diferente. Os homens que não amavam as mulheres é o primeiro de uma trilogia – Millennium. É um livro envolvente, destes que quando a gente começa não quer largar e quando se termina se experimenta um vazio e uma ligeira nostalgia de personagens cativantes que nos roubam temporariamente da rotina.
A história é a de um jornalista, Mikael Blomkvist, crítico econômico, um profissional ético, muito atento às regras do bom jornalismo, politicamente correto sem ser chato. E é claro que sua ética se estende as suas relações pessoais. É sócio proprietário da revista Millennium de Érika Berger, sua colega de faculdade e amante ocasional. Érika é casada com o artista plástico Lars Beckman. Sim, há um triângulo amoroso nesta história, mas nada que faça Édipo furar os olhos.
Há um outro sócio na jogada, Christer, mas este é quase um figurante.
O Super Blomkvist, alcunha que ganhara de seus colegas jornalistas quando denunciou quatro jovens suspeitos de compor uma quadrilha denominada, também pela imprensa, de Irmãos Metralhas, escreveu uma matéria denúncia sobre um industrial, Hans-Erik Wennerström. Blomkvist acusou Wennerström de desviar fundos sociais destinados a investimentos industriais na Polônia para o tráfico de armas e por uma questão de não revelar sua fonte foi condenado a três meses de prisão por difamação.
Larsson vai apresentando as peças de seu quebra-cabeça que inicialmente vai sendo montado em áreas separadas, temporariamente dispersas, paralelas, mas que ao contrário destas, se encontrarão muito antes do infinito.
Apresenta-nos então Dragan Armanskij, um sujeito de 56 anos, nascido na Croácia, filho de pai judeu armênio e mãe mulçumana bósnia de ascendência grega. E apesar dessa combinação tida pelos aficionados por biologia racial como matéria humana inferior, ele não era nem traficante de drogas nem assassino mafioso, mas sim um economista talentoso que começara como assistente da Milton Security e 30 anos depois se tornara diretor executivo chefiando todas as operações.
Foi Dragan Armanskij quem empregou Lisbeth Salander, a pimenta mais ardida deste saboroso prato, digo livro.
Salander tinha o dom da investigação. Ela possuía a capacidade de se infiltrar na pele da pessoa investigada. “Se houvesse merda a revelar, atingia o alvo como um míssil programado”. Ninguém sabia dos recursos que Salander dispunha, mas ela era um hacker, uma hacker fodida, como dirá Mikael Blomkvist. Ela será contratada para investigá-lo.
Salander tem uma história pessoal instigante, ela era uma tutelada e como não tinha família seu tutor era uma pessoa encarregada desta função pelas autoridades sociais.
Na Suécia cerca de 4 mil pessoas se encontram na condição de tutelados. São pessoas consideradas com uma doença psíquica manifesta ou uma doença psíquica ligada à forte dependência de álcool ou drogas. Mas como Lisbeth Salander se negava a colaborar com qualquer tipo de avaliação diagnóstica, ela era submetida à condição degradante de não poder administrar sua vida e sua conta bancária. Enquanto tinha Holger Palmgrem como tutor, não se preocupava muito com seu estatuto jurídico, mas quando este foi substituído pelo dr. Nils Bjurman “a coisa mudou de figura” radicalmente.
A terceira pilastra sustentadora da história é Henrik Vanger. O líder do grupo empresarial da família Vanger. Ele contrata Mikael para escrever, neste ano de seu afastamento da revista Millennium para poupá-la da má fama de seu editor chefe e na tentativa de não afastar os anunciantes ou de tê-los de volta, uma crônica familiar da família Vanger. O motivo verdadeiro da contratação de Blomkvist é o desaparecimento da sobrinha preferida de Henrik, supostamente assassinada, mas que nunca apareceu o corpo. Henrik Vanger não se cansa de investigar por conta própria os acontecimentos do dia em que Harriet Vanger desapareceu, há 36 anos. Ele possui arquivos de fotos e de documentos do processo que coloca à disposição de Mikael. Este reluta muito em aceitar a louca tarefa de desvendar um acontecimento ocorrido há tanto tempo, um crime já prescrito. Teria que passar um ano, este ano em que estava condenado como jornalista, com a bunda grudada a uma cadeira escrevendo a biografia da família Vanger – um livro no mínimo interessante, e tentar descobrir pistas ainda não reveladas do desaparecimento de Harriet. No final deste ano, tendo ele descoberto algo significativo ou não, receberia um salário extravagante e, o quê o convenceu definitivamente a aceitar a proposta de Henrik Vanger, a cabeça de Wennerström numa bandeja.
Bem, as cartas estão lançadas e espero ter aguçado em meus poucos, mas estimados leitores o desejo incontinente de ler Os homens que não amavam as mulheres.
Larsson morreu em 2004, com 50 anos, de ataque cardíaco, após ter entregado ao seu editor a sua trilogia Millennium. Quanta emoção! É a vida imitando uma boa ficção literária.

Rosana de Almeida

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